No seu jeito de quem está em casa a ver a novela, pega no jogo como quem pega no comando. Aumenta o som com passes de uma visão completa das movimentações dos colegas. Muda de canal, mudando o jogo, rematando ou criando oportunidades para vermos outros “programas”. Alan Ruiz é um jogador diferente. É craque “old school”. Não varre o campo como Modric, não dribla como Messi, nem sequer “chama” a bola como Ronaldo ou Ibrahimovic. Não. Este argentino não vive na nossa era. Espanta-me até como Jesus o suporta. Taticamente dá muito pouco ao jogo e raramente faz o que um 10 faz, raramente faz o que um falso ponta de lança faz. Alan faz uma posição que ainda não existe e que o treinador do Sporting ainda está a tentar descobrir. Não é um 8, não é um 9,5, muito menos um 10. É um 10 e meio, sendo que chega normalmente atrasado para funções mais resguardadas e não gosta de batalhar com os defesas em funções mais adiantadas. O Alan gosta mesmo é da bola, de preferência com adversários a 2m dele, esteja onde estiver.
Se a prestação táctica é um inferno, a prestação técnica é um paraíso. Recebe, ajeita, passa, dribla, remata…não há nada que o argentino não faça melhor que os seus colegas, mas infelizmente tem um tempo e uma visão que ainda não compreende os seus parceiros, nem estes o entendem a ele. Quase sempre parece jogar numa década distinta, algures entre o final dos anos 70 e inicio do império do nick & rush, o nosso craque vê-se e actua num jogo que se desenrola em câmara (quase) lenta. Nesse tempo e espaço, só dele, faz magia. O problema é que estamos em 2017 e não há tempo para as rotações baixas d’El Mago. Nas últimas partidas, Alan tem viajado no tempo e quase que já o consigo ver a retirar o gelo da criogenização e a entrar furiosamente (bom…é melhor dizer, moderadamente) numa velocidade e articulação mais anos 90. Não sei, não sabe Jesus e talvez não saiba ninguém quando, e se, o argentino alguma vez dará de caras com a actualidade do futebol europeu. Mas sei que se isso suceder e a sua nave-espacial aterrar em Alvalade nos tempos mais próximos, iremos ter craque. Iremos ter sucessor para uma coroa há muito sem pretendente. Uma coroa deixada cair aos trambolhões por um Balakov em fungas (€uro legítimas) de se juntar a um Estugarda já em decadência.
Desde então que não mais tivemos Maestros, Magos ou Regista’s e dependemos sempre dos alas (e foram dos melhores que o mundo teve e tem) para ultrapassar as defesas. Eu assumo que Alan Ruiz me agrada. Agrada-me e desagrada-me. Num minuto estou a babar com um passe épico ou um remate “bulls-eye”, no minuto seguinte estou a arrancar as sobrancelhas, depois de mais uma sucessão de 14 dribles a mais, mais uma das 34 faltas que faz (sim, com o guião de JJ) ou uma pressa de jogar condizente com uma velhinha a decidir se quer ou já não se lembra se quer, atravessar uma estrada. Não é consensual, talvez nunca o venha a ser, talvez precise apenas da nossa paciência até que descubra um calendário e um relógio que o venha a ajudar a entender a nossa década e o tempo do nosso jogo. Talvez marque 3 golos e faça 2 assistências na próxima partida. Talvez durma até ser substituído. A “novela” que vê é um pouco imprevisível e nunca ninguém sabe se perderá o comando debaixo de alguma parte do sofá. Um dez e meio, Ruiz, El Mago e argentino é complicado de decifrar.
SL





